PSIQUIATRIA | Oscilação do humor: Transtorno Afetivo Bipolar

Autor: Mário Francisco Pereira Juruena, Coordenador do Ambulatório de Doenças Afetivas da Fundação Faculdade Federal Ciências Médicas de Porto Alegre – (FFFCMPA/ HMIPV) Sócie Efetivo da Sociedade de Psiquiatria do RS.
Mestre em Psicobiologia pela Universidade Federal de São Paulo (EPM). CREMERS 16157


 

 

Este capitulo busca a identificação dos sintomas, características e formas de tratamento e medicações utilizadas na oscilação depressão-euforia; depressão-agitação psicomotora. Este quadro é conhecido como Transtorno Afetivo Bipolar. É de fundamental importância que os profissionais de saúde, os pacientes e familiares conheçam o diagnóstico e tratamento.

Os conceitos de depressão e mania existem há séculos, já havia sido descrito pacientes com melancolia na Grécia antiga, atribuindo-lhes causas biológicas. Entretanto, somente a partir do século XIX ficou claro que depressão e mania representavam dois estágios de uma mesma doença.

Até o início dos anos oitenta, o transtorno do humor (ou afetivo) bipolar era conhecido como psicose maníaco-depressiva (PMD) mas, a partir dos anos setenta, foram estudadas também formas mais leves de euforia, como a hipomania. Com isso, o termo psicose, que denotava maior gravidade, deixou de ser apropriado para a maioria dos pacientes.

Apesar de a doença maníaco-depressiva ser conhecida há muitos anos, a falta de um tratamento eficaz facilitava a confusão do diagnóstico com esquizofrenia e, geralmente, levava à internação. A utilização dos sais de lítio trouxe novo alento. Pacientes que tinham acesso ao tratamento preventivo com lítio geralmente deixavam de ser reinternados. Foi ocorrendo uma gradativa descentralização do tratamento hospitalar para o ambulatorial, permitindo auxiliar pacientes com formas mais leves de euforia e depressão, antes pouco vistos ou diagnosticados como “neuróticos”. O aprimoramento do diagnóstico e o aparecimento de novos medicamentos impulsionaram a pesquisa sobre os transtornos do humor (do afeto).
Conhecer melhor o diagnóstico, as causas e o tratamento permitem aos pacientes a oportunidade de restaurar sua própria vida, na família, com os amigos, no trabalho e nos estudos.

 

O que é Doença Afetiva e ou do Humor?

 

Transtornos do humor (ou afetivos) são enfermidades em que existe uma alteração do humor, da energia (ânimo) e do jeito de sentir, pensar e comportar-se. Acontecem como crises cíclicas, oscilando ao longo da vida. A maioria dos pacientes sofre apenas de depressão e alguns também têm episódios de mania. O termo mania não significa “mania de fazer alguma coisa” ou algum tique – é o nome que o médico dá para a fase de euforia da doença maníaco-depressiva. Os sintomas de euforia e depressão variam de um paciente a outro e no mesmo paciente, ao longo do tempo, muitas vezes confundindo-o e a seus familiares.

É característico o paciente ter recaídas, embora entre as crises os pacientes possam ficar sem sintomas. Existem duas formas de apresentação básicas: uma forma chamada “Mania”, e outra chamada “Depressão”. As pessoas com esta doença podem ter as duas formas intercaladas, e neste caso, a doença é chamada de Doença Afetiva Bipolar. Pode apresentar-se em uma só forma (depressão) e, neste caso, a doença é chamada de Transtorno Afetivo Unipolar ou Depressão Maior.

 

O que é Transtorno Afetivo Bipolar?

 

Transtorno Afetivo Bipolar, também conhecido como doença maníaco-depressiva ou psicose maníaco-depressiva (PMD), é um quadro psiquiátrico envolvendo episódios de mania e depressão. O humor da pessoa habitualmente oscila de muito eufórico/agitado e irritável à tristeza e desesperança, e daí, novamente, com período de humor normal entre esses episódios.

O Transtorno Bipolar tipicamente começa na adolescência ou no adulto jovem e continua pela vida. Por não ser freqüentemente reconhecido como doença, pode causar sofrimento desnecessário às pessoas que o têm. “Existem tratamentos eficazes que aliviam o sofrimento causado pelo Transtorno Bipolar e podem prevenir complicações (separações conjugais, perda do emprego, abuso de álcool, drogas e suicídio).”

 

Qual a freqüência dos Transtornos do Humor?

 

Os transtornos do humor (do afeto) atingem mais de 20% da população em algum momento da vida. As depressões são duas vezes mais comuns em mulheres que em homens, iniciam-se, em geral, entre 20 e 40 anos de idade e vitimam 15% a 18% das pessoas. Transtornos do humor bipolares tipo I atingem igualmente 1% a 2% dos homens e mulheres e começam geralmente entre 15 e 30 anos de idade. Cerca de 5% da população pode desenvolver a forma bipolar tipo II, mais comum em mulheres. Apesar de infrequentes, os transtornos do humor atingem crianças, com sintomas ansiosos e irritabilidade predominantes.

 

Quais são as causas do Transtorno Afetivo Bipolar?

 

Desconhecem-se as causas exatas do transtorno bipolar mas, aparentemente, o fator genético é determinante. Existe uma interação complexa entre fatores ambientais e internos com graus variáveis de vulnerabilidade genética. Inúmeros estresses podem desencadear ou mesmo manter as primeiras crises. Dificuldades financeiras, doença na família, perda de uma pessoa importante, uso de drogas, de inibidores de apetite, parto, etc., podem desencadear a doença em pessoas predispostas.

Parentes de primeiro grau de pacientes com transtorno bipolar do humor podem ter diferentes tipos de transtornos do humor: unipolar, bipolar tipo I ou II, ciclotimia ou distimia.

É muito comum a pessoa atribuir a acontecimentos importantes, a problemas financeiros, profissionais ou sociofamiliares as razões para entrar em depressão ou (hipo)mania. É mais comum ainda que ao menos parte desses problemas seja conseqüência dos sintomas iniciais da doença, que se agravam a partir daí.

 

Reconhecimento

 

Transtorno Bipolar envolve ciclos de mania e depressão. Os pacientes com Transtorno Bipolar não costumam apresentar todos os sinais e sintomas de mania ou depressão, mas em alguns episódios da doença apresentam pelo menos alguns deles em graus de intensidade variando de leve a grave.

 

Como identificar alguém em Depressão?

 

Sinais e sintomas de depressão incluem:
– humor para baixo, tristeza, angústia ou sensação de vazio persistentes;
– sensação de desesperança ou pessimismo; pouca capacidade de sentir prazer e alegria na vida;
– inquietação, ansiedade ou irritabilidade;
– cansaço, desânimo, preguiça, falta de energia física e mental, sensação de fadiga ;
– dificuldade de se concentrar, lembrar ou tomar decisões, lentidão do raciocínio.
– falta de vontade e iniciativa, apatia, perda de interesse ou prazer nas atividades habituais;
– pensamentos negativos repetidos, idéias de culpa, desvalia;
– desamparo, fracasso, inutilidade, falta de sentido na vida;
– sentimentos de insegurança, baixa auto-estima, medo; interpretação distorcida e negativa do presente;
– redução da libido e vontade de ter sexo; perda ou aumento de apetite e/ou peso;
– insônia ou dormir demais, sem se sentir repousado (distúrbios do sono);
– dores crônicas ou sintomas físicos difusos e persistentes: dor de cabeça, nas costas, no pescoço e nos ombros, sintomas gastrintestinais, alterações menstruais, queda de cabelo, dentre outros;
– pensamento de doença, morte ou suicídio, tentativas de suicídio;
– em depressões graves, alucinações e/ou delírios.

 

Como é a mania?

 

O termo mania significa um estado mental alterado com euforia, exaltação e/ou muita irritação, “pavio curto”, podendo tornar-se agressivo verbal e fisicamente.

Humor para cima, exaltação, alegria exagerada e duradoura.

Ocorrem agitação ou inquietação, aumento da energia.

Os pensamentos aceleram-se, aumenta a quantidade de idéias, a pessoa não consegue falar tudo o que vem à mente ao mesmo tempo, tagarelice, fala rápida;

Aumento da produtividade ou começa muitas coisas e não consegue terminar.

Insônia, redução da necessidade de sono.

Não consegue manter a atenção, distração fácil tudo desvia a atenção.

Maior contato social e desinibição, comportamento inadequado e provocativo, agressividade física e/ou verbal, associado a brigas e discussões.

Surgem autoconfiança e otimismo extremos. Acha-se imbuída de poderes ou dons especiais de influência, grandeza, inteligência, riqueza e poder; crenças não realistas nas capacidades e poderes próprios. Quando grave, ocorrem delírios e/ou alucinações.

Súbitos sentimentos de depressão podem vir e logo desaparecer.

Muitos planos, gastos excessivos, endividamentos, negócios irresponsáveis ou precipitados.

Aumenta o contato social, a pessoa fica desinibida, deixa de se comportar de acordo com seu padrão.

Na esfera sexual, aumenta a libido, a desinibição e o erotismo.

Em geral, falta autocrítica, não percebe as mudanças ou não as vê. Julgamento (crítica) prejudicado, não característico daquela pessoa. Negação de que alguma coisa esteja errada.

Abuso de drogas, particularmente álcool, cocaína e medicação para dormir.

 

Como identificar quando alguém está em Mania?

 

O reconhecimento dos vários estados de humor é essencial, de modo que a pessoa que tenha doença maníaco-depressiva possa obter tratamento eficaz e evitar as conseqüências dessa doença que podem incluir destruição de relacionamentos pessoais, perda de emprego e suicídio.

 

Em geral, a mudança no comportamento é gradual, agravando-se rapidamente, mas pode começar de um dia para o outro. Dura dias, semanas ou meses se não for tratada.

 

Normalmente, a pessoa encontra motivos para sentir-se tão animada e não percebe a alteração dos pensamentos e sentimentos. A própria família e os amigos não costumam atribuir a mudança do comportamento a sintomas de doença. Exemplo de descrição de paciente com mania:

“As idéias rápidas se tornam muito rápidas e há idéias demais… grande confusão substitui a clareza… a memória se vai. O humor contagiante deixa de divertir… os amigos ficam amedrontados… tudo está agora na contra-mão… você está irritável, com raiva, com medo descontrolado”.

 

O que é Hipomania?

 

Na hipomania, o grau de aceleração psíquica é menor que na mania. É comum aparecer antes ou depois de uma depressão e durar alguns dias. Os sintomas são os mesmos, de menor gravidade e a pessoa não tem sintomas psicóticos. O humor geralmente é irritável e a pessoa se torna provocativa (achando sempre que os outros a provocam). O aumento de energia pode ser produtivo, mas a pessoa se dispersa mais e perde mais tempo com detalhes. Pode ter menos necessidade de dormir, tornar-se exageradamente otimista, segura de si, arrogante, enfim, sentir-se acima dos outros. Aumentam as idéias, os planos, os gastos, a libido. Como na mania, a pessoa justifica toda a alteração do comportamento atribuindo-a a circunstâncias da vida, mas, por ser menos séria, freqüentemente não é diagnosticada.

Um sinal precoce de doença maníaco depressiva pode ser hipomania – estado no qual a pessoa mostra alto nível de energia, mudanças excessivas de humor ou irritabilidade, e comportamento impulsivo ou imprudente.

Hipomania pode ser uma sensação boa para a pessoa que a vive. Assim, mesmo quando a família e os amigos aprendem a reconhecer as oscilações de humor, o indivíduo freqüentemente nega que alguma coisa esteja errada.

Também nos seus estágios iniciais, o Transtorno Bipolar pode mascarar-se como um problema outro, que não uma doença mental. Por exemplo, ele pode primeiro aparecer como abuso de álcool ou drogas, ou piora do desempenho na escola ou no trabalho. Exemplo de descrição de paciente com hipomania:

“No começo quando estou muito contente é tremendo… as idéias vêm rapidamente… a timidez desaparece, as palavras e gestos corretos estão subitamente presentes… pessoas e coisas desinteressantes se tornam muito interessantes. A sensualidade é penetrante, o desejo de seduzir e de ser seduzido é irresistível. A cabeça está inundada com sensações inacreditáveis de desembaraço, poder, bem-estar, onipotência, euforia… você pode fazer qualquer coisa… mas em algum ponto isto muda.”

 

Está certo rotular as pessoas como Maníaco-depressivas?

 

Rótulos são dados a produtos. Pacientes recebem diagnósticos médicos. Sem o diagnóstico correto, é impossível elaborar estratégias de tratamento.

Os sintomas que permitem diagnosticar o transtorno bipolar do humor são os mesmos, independentemente de raça, cultura ou classe social. Eles se diferenciam da vida psíquica normal, alterando a forma de sentir, pensar e agir.

 

O que acontece se não tratar?

 

Se não for tratado, o Transtorno Bipolar tende a piorar, e a pessoa tem episódios completos de mania e depressão. É importante saber que, com tratamento, o estado maníaco ou depressivo passa mais rápido, sem deixar sequelas.

Pessoas que sofrem de transtorno bipolar levam em média oito anos antes de serem diagnosticadas e/ou receberem tratamento adequado. Nesse período, os pacientes tiveram sofrimento físico e psíquico imensurável e podem ter acumulado perdas irreversíveis nos relacionamentos afetivos, nos estudos e no trabalho. Isso significa separações, repetência, incapacidade de adquirir uma profissão, perda do emprego, invalidez precoce ou mesmo morte.

Na depressão, tudo se torna difícil e custoso: estudar, trabalhar, conviver com as pessoas. Comprometem-se relacionamentos afetivos, na família, com o cônjuge ou com colegas e amigos. Para atenuar o sofrimento, muitos se tornam usuários de tranquilizantes, álcool ou drogas. Além das perdas já mencionadas, a pessoa pode correr risco de vida por negligenciar cuidados com a saúde ou por suicídio.

Durante a mania, a pessoa sente-se ótima e não consegue avaliar as conseqüências da irritabilidade, da desinibição e da sociabilidade na esfera pessoal. Atitudes tomadas durante a (hipo)mania podem resultar em rompimentos conjugais, com familiares e com amigos ou em ruína financeira e endividamentos. Há risco de adultério, de gravidez indesejada, de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Os pacientes podem perder o emprego, arruinar sua reputação, passar a abusar de álcool e/ou drogas. A combinação com o álcool é desastrosa, pelo risco de acidentes, de violência ou de problemas com a polícia.

 

Tratamento

 

Objetivos

– Eliminar ou diminuir a intensidade dos sintomas da doença, e proporcionar, o mais rápido possível, que o paciente retome sua vida normal.
– Evitar a ocorrência de novas crises, aumentar o intervalo entre elas, diminuir sua freqüência e o número de internações.

 

Como tratar alguém com Transtorno Bipolar?

 

O aparecimento do Transtorno bipolar deve-se a uma combinação de fatores, em que aspectos biopsicossociais desempenham papel importante no desencadeamento da doença. Assim sendo, tratamentos medicamentosos, orientações sobre a doença e orientação psicológica estão indicados. O segredo está no encontro da combinação ideal para cada paciente.

Há vários tipos de tratamento disponíveis para as Doenças Afetivas. Podem ser usados isoladamente ou associados, dependendo da gravidade da doença.

a) Hospitalização – Indicada quando a gravidade dos sintomas durante as crises ameaçam o bem estar do paciente. Nestes casos, hospitalizado, o paciente receberá cuidados mais constantes por uma equipe especializada. Muitas vezes, porém, nas crises menos graves, o paciente pode ser tratado no ambulatório.

b) Medicamentos – São usados tanto para controlar a crise como para prevenir recaída. Na Doença Afetiva Bipolar, os medicamento mais utilizados são o carbonato de lítio e estabilizadores do humor.

c) Psicoterapias – A associação de psicoterapia melhora a eficácia, a aderência ao medicamento e diminui as recaídas. Podendo os(as) pacientes serem encaminhados para atendimento individual, de casais e/ou de família ou grupo de pacientes.

d) Orientação psicoeducacional – Se o medicamento não for tomado, de nada adianta receitá-lo para aumentar o sucesso do tratamento. É preciso esclarecer ao paciente e aos familiares sobre os sintomas da doença, suas causas, como ela pode seguir durante a vida da pessoa, quais os riscos, que atitudes tomar durante a depressão e na mania, como se preparar para as recorrências e assim por diante.

Alguns aspectos são fundamentais. Em primeiro lugar, será tratado o diagnóstico de transtorno bipolar, não apenas sintomas depressivos ou eufóricos. Levando em consideração que a doença é para a vida toda, podendo hibernar por meses ou anos, o tratamento deve ser planejado para atender as necessidades a curto, médio e longo prazos.

 

Na orientação acerca da doença, também deve ser abordado o preconceito. Resolver dúvidas ajuda a diminuí-lo, mas só o tempo poderá eliminá-lo de vez. Infelizmente, pacientes e familiares sofrem durante anos, acumulando ressentimentos, queda do poder aquisitivo e atraso na formação antes da aceitação do diagnóstico e do tratamento. Outra questão a ser aprendida é como lidar com uma nova crise. Cuidar da decepção, da frustração, da desesperança e, além disso, prevenir conseqüências prejudiciais são fundamentais na recuperação.

 

Tratamento medicamentoso

 

Existem vários tipos de substâncias usadas no tratamento do transtorno bipolar, dependendo do estado em que o paciente se encontra: estabilizadores do humor, antidepressivos, antipsicóticos e tranquilizantes.

Quando a pessoa já teve, pelo menos, três crises ou uma muito séria e tem o diagnóstico de transtorno bipolar do humor, é aconselhável não adiar o tratamento de manutenção, para evitar ou reduzir a gravidade de novos períodos de doença.

Nessa fase, normalmente a pessoa sente-se bem e corre o risco de descuidar do rigor no tratamento medicamentoso. Da mesma maneira como acontece na hipertensão arterial ou no diabetes, a pessoa sente-se bem por estar tomando remédios. Ela não pode parar sem o consentimento do médico achando que está curada. Felizmente dispomos, hoje em dia, de vários remédios que podem controlar o transtorno bipolar do humor.

a) Estabilizadores do humor: São os remédios mais importantes e devem ser usados a partir do diagnóstico de transtorno bipolar. Controlam o processo de ciclagem de um episódio a outro, reduzindo a quantidade de depressões e (hipo)manias e a gravidade delas.Variam entre si no efeito antidepressivo e antimaníaco. Os mais estudados e bem conhecidos são o carbonato de lítio, a carbamazepína e o valproato de sódio. Com exceção do lítio, todos eles são também usados como anticonvulsivantes (remédios para tratar epilepsia).

 

b) Antidepressivos: São tratamento indicados para as depressões. No paciente com transtorno do humor bipolar, o médico primeiro introduz o estabilizador do humor e, se não melhorar, associa um antidepressivo. Essa cautela reduz o risco de ciclagem para euforia que os antidepressivos podem desencadear. Se isso acontecer, demorará mais para controlar a doença a longo prazo.

 

c) Antipsicóticos: São medicamentos de efeito antimaníaco e antipsicótico. Podem ser usados durante um episódio de depressão, mania ou estado misto e se houver sintomas psicóticos.

d) Tranquilizantes: representam substâncias com ação hipnótica ou tranquilizante, que devem ser usados temporariamente, enquanto os estabilizadores do humor não fizerem efeito.

 

Características do Lítio

 

Lítio, um elemento natural, é um medicamento usado para diminuir os sintomas do transtorno bipolar. Ao prescrever o lítio, o médico leva em consideração vários fatores incluindo o histórico clínico, outros medicamentos, alimentação, outras atividades e a ocupação do paciente. Os sintomas de alguns pacientes podem começar a melhorar após vários dias contados a partir do início do tratamento com lítio. Outros podem levar até várias semanas para apresentar grandes efeitos da medicação. Alguns médicos poderão prescrever uma medicação adicional temporária até que o lítio faça efeito.

Antes de iniciar a terapia com o lítio, são necessários exames laboratoriais para avaliar as condições dos rins e da glândula tireoide. É importante a avaliação dos rins porque o lítio pode causar algum problema no funcionamento dos mesmos.

Mais ainda, utilizando os exames de sangue para avaliar como a tireoide está funcionando tem uma grande importância, porque anormalidades da tiroide podem resultar num comportamento similar à mania ou à depressão. Também foi mostrado que o lítio pode causar problemas da tiroide.

Após iniciar a terapia com o lítio, serão necessários exames regulares de sangue para verificação dos níveis de lítio no sangue (Litemia) até que eles estabilizem. Os exames devem ser feitos de manhã, após tomar a dose da noite e não tomar o comprimido de lítio antes do exame, que deve ser feito 12 horas após a última dose. O lítio não cria dependência.

 

O que deve se esperar ao tomar medicamento?

 

O medicamento é usado para tomar o lugar dos sintomas. Os sintomas de mania podem ser estabilizados por meio de medicamentos. Estabilizadores do humor podem levar até duas a quatro semanas para fazer o efeito total. Dependendo da avaliação do médico, a dosagem pode ser diminuída ou reforçada para um perfeito ajuste do tratamento. Além disso e dependendo dos sintomas, o médico pode acrescentar outro medicamento ao tratamento em andamento. Pessoas com transtorno bipolar também podem precisar de medicamentos para sintomas de depressão. Com o medicamento correto os sintomas de depressão podem diminuir e numa possibilidade ideal até desaparecerem. O paciente deve se sentir aliviado num intervalo de duas a oito semanas, embora uma resposta completa possa levar de 12 a 16 semanas.

Os sintomas de transtorno bipolar de algumas pessoas aumentam enquanto outros problemas ainda permanecem, tal como relacionamentos danosos ou estilos de vida não saudáveis. Nesses casos a psicoterapia pode ser necessária, uma vez que os medicamentos auxiliam um paciente reduzindo ou eliminando os sintomas e não alterando situações negativas de vida. Entretanto, uma pessoa sentindo-se melhor após tomar um medicamento pode achar mais fácil conviver com as adversidades da vida.

 

Como é escolhido o melhor medicamento para uma pessoa?

 

Não existem duas pessoas que respondam da mesma forma ao mesmo medicamento. Enquanto uma pessoa com depressão pode ter uma melhora total com o medicamento A, outro paciente com sintomas similares pode se beneficiar em nada ou ainda ter vários efeitos colaterais.

Às vezes vários medicamentos diferentes devem ser tentados ou, então, pode ser necessária uma combinação de medicamentos para se conseguir a suficiente melhora. Uma experiência anterior com medicamentos é uma boa referência para se saber qual o medicamento a ser usado ou evitado. Estimular o paciente a manter seu próprio controle do tratamento, incluindo a medicação, dosagens utilizadas, o tempo de duração e experiências negativas ou positivas, podem ser muito importantes para o médico decidir quais medicamentos usar ou evitar.

 

Tratamentos Psicológicos

 

O tratamento medicamentoso é básico, mas o transtorno bipolar não é meramente um problema bioquímico, mas também psicológico e social. Entrar em contato com os sintomas do transtorno bipolar causa sofrimento e pode ser traumatizante para o paciente e para a família. O medo de como isso vai afetar a vida, o preconceito e a aceitação do diagnóstico requerem atenção psicológica. Para aceitar, é necessário conhecer a doença a ponto de diferenciar pensamentos e sentimentos e tomar decisões baseadas em conhecimento e não em emoções, como medo ou raiva da doença. Tratamentos psicoterápicos procuram fornecer boas informações, orientação e motivação em um ambiente de apoio e confidencial.

Há vários tipos e orientações, dependendo da necessidade específica de cada paciente, como psicoterapia individual ou grupal, terapia familiar ou conjugal e orientação psicoeducacional, como mencionado anteriormente.

Durante o curso do tratamento, o paciente costuma enfrentar recorrências. Tais experiências trazem desapontamento, dúvidas sobre o tratamento, sentimentos de culpa e de revolta. Na psicoterapia e na orientação sobre a doença, é possível encontrar esclarecimento e apoio necessários para superar cada novo obstáculo que a doença impõe. “A psicoterapia como um adjunto aos medicamentos pode ser muito útil para fornecer apoio, educação e orientação ao paciente e à família.”

 

Obtenção de Ajuda

 

Qualquer pessoa com Transtorno Bipolar deve estar sob os cuidados de um psiquiatra experiente no diagnóstico e tratamento dessa doença. Outros profissionais de saúde mental, tais como psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais especializados em psiquiatria, podem ajudar o paciente e sua família com abordagens adicionais ao tratamento.

 

Pessoas com Doença Maníaco-depressiva freqüentemente necessitam de auxílio para procurar ajuda:

– Freqüentemente, pessoas com esta doença não reconhecem o quão incapacitadas estão, ou atribuem seus problemas a outras causas que não a doença mental.

– Pessoas com Transtorno Bipolar precisam de estimulo da família e amigos para procurar tratamento.

– Familiares, amigos e o médico da família podem “levar” a pessoa ao tratamento, insistindo que alguma coisa está errada e que a assistência de um profissional de saúde mental precisa ser procurada.

– Algumas pessoas necessitam mesmo de mais ajuda e precisam ser levadas para tratamento.

– Se a pessoa está no meio de um episódio grave, ela pode ser internada para sua própria proteção e para receber o tratamento indispensável.

– É importante para o paciente entender que o Transtorno Bipolar não desaparecerá e que a aderência (persistência) contínua ao tratamento é necessária a fim de manter a doença sob controle.

– Estímulo contínuo e apoio são necessários, após a pessoa ter obtido tratamento, porque pode demorar algum tempo para descobrir qual regime terapêutico é o melhor para aquele paciente em particular. Muitas pessoas, recebendo tratamento, assim como familiares e amigos, também se beneficiam de grupos de apoio mútuo, infelizmente ainda escassos no nosso meio.

 

Problemas que comprometem o resultado Terapêutico

 

A magnitude das conseqüências depende da combinação de uma série de: fatores idade de início (quanto mais cedo mais compromete os estudos e a formação profissional), gravidade dos sintomas, quantidade de episódios, tratamento adequado, aceitação do tratamento, apoio familiar, associação com alcoolismo ou abuso de drogas (o que praticamente impossibilita o tratamento), associação com outras doenças, características de personalidade (fragilidade, imaturidade, dependência) e problemas persistentes considerados sérios pela pessoa.

 

Como a família e os amigos podem ajudar

 

Antes de mais nada, é necessário conhecer a doença e o tratamento do transtorno bipolar do humor. Mesmo assim, cada novo episódio representa um desafio, porque se misturam problemas individuais, questões pendentes e características de cada família.

O apoio ao tratamento é fundamental para ajudar o paciente em momentos difíceis a manter os medicamentos na dose certa e no horário prescrito. Bastam alguns dias sem tomar a medicação ou tomando menos que o necessário para que entre em nova crise.

Se os medicamentos estiverem causando efeitos colaterais muito incômodos e o paciente mencionar que quer parar com tudo isso, o médico deve ser informado.

Detectar com o paciente os primeiros sinais de uma recaída; se ele considerar como intromissão, afirmar que é seu papel auxiliá-lo. Falar com o médico em caso de suspeita de idéias de suicídio e desesperança. Compartilhar com outros membros da família o cuidado com o paciente. Estabelecer algumas regras de proteção durante fases de normalidade do humor como retenção de cheques e cartões de crédito em fase de mania; auxiliar a manter boa higiene de sono; programar atividades antecipadamente.

Mesmo depois da melhora, há um período de adaptação e de desapontamento; é importante não exigir demais e não superproteger; auxiliá-lo a fazer algumas coisas quando necessário.

Evitar chamar o paciente de louco ou demonstrar outros sinais de preconceito, que favorecem o abandono do tratamento; tratá-lo normalmente e apontar sintomas com carinho.

Aproveitar períodos de equilíbrio para diferenciar depressão e euforia de sentimentos normais de tristeza e alegria.

Obras consultadas:

American Psychiatric Association: Diagnostic and statistical manual of mental discorders IV-TR. WASHINGTON, DC, APA, 2000.
Goodwin, Frederick and Jamison, Kay. Manic – depression bil Gates Manic-depression Illnbess. Oxford University Press, New York, 1990.
Jamison, Kay. Mente Inquieta. São Paulo : Martins Fontes, 1999.
Juruena, Mario F. Transtorno Afetivo Bipolar, Psicoeducação: Diagnóstico e Terapêutica. Porto Alegre : Dolika, 2002.
Juruena, M. F. Terapia Cognitiva: Abordagem para o Transtorno Afetivo Bipolar. Rev. Psiq. Clin. 28 (6): 322-330, 2001.

 

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